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gestão escolar

Grupo Keeper visita Escola Os Aprendizes em Portugal

Escola tem metodologia de ensino focada na experiência e coerência e oferece alimentação orgânica para os alunos

 

Todos os profissionais da Educação sabem o quão desafiante é o dia a dia escolar, e é preciso energia e muita inteligência emocional para lidar com feedbacks constantes, organização, planejamento, além dos cuidados com as necessidades de cada criança.

Atendemos escolas de várias regiões com nosso programa de Auditoria e Treinamento, e podemos verificar que com um pouco de foco e direcionamento, todo o esforço e amor dedicado ao trabalho de gerir uma escola  e instruir crianças torna-se ainda mais completo e repleto de sentido.

Hoje trazemos para vocês uma história inspiradora diretamente de Portugal sobre metodologias de educação eficientes e inovadoras e gestão escolar. Entrevistamos Sofia Borges, diretora e idealizadora da escola Os Aprendizes, que começou sua carreira profissional com treinamento de pessoas na área corporativa,  morou 7 anos no Brasil  e seu interesse inicial por métodos educacionais veio primeiro como mãe, para depois com suas ideias e questionamentos fundar a escola dos seus sonhos.

 

Grupo Keeper: Como ocorreu a transição de carreira para o treinamento de pessoas para a gestão educacional?

Sofia Borges: Fui Morar no Brasil para representar uma empresa Suéca de treinamento e consultoria em São Paulo que era responsável por toda a América Latina. Tive a oportunidade de oferecer treinamentos na Venezuela, México, Bolívia, … lugares que aqui na Europa não temos muito contato porque viajamos mais por aqui, foi uma oportunidade fantástica. Quando regressei para Portugal, eu havia tido um filho e começou a busca por escolas. Achei Portugal muito atrasado em termos educativos. Eu digo isso porque se comparar com as famílias brasileiras, fala-se mais em pedagogia. Se falarmos sobre método construtivista a maioria dos brasileiros sabem do que estou falando, a maioria dos portugueses não tem nem ideia do que estou a falar.

Os portugueses pensam muito nos rankings. não quer dizer que no Brasil não se pense nos rankings mas já há uma mentalidade mais aberta ao novo. Isso foi a 18 anos, Portugal hoje se abriu muito ao mundo, mas nesta época era ainda muito conservador e fechado, tantos anos de ditadura fez com que ficássemos aqui, muitos anos fechados dentro de nós próprios. Pra mim foi diferente porque tive oportunidade de trabalhar para uma empresa estrangeira e ter contato com culturas e realidades diversas.

 

Grupo Keeper: Qual foi a realidade educacional com que se deparou aqui em Portugal?

Sofia Borges: Quando cheguei em Portugal vi as escolas ainda muito centradas no professor, em ensinar as crianças a pintar o céu de azul e todo o design que tem que ter, a relvinha verde, a casa com o telhado, o céu azul e a árvore com as maçãs. Meu filho não era assim, ele era muito inquiridor, pequenininho mas já falava coisas como, o céu é encarnado. “Como assim Thomas, encarnado porquê?”, e ele dizia, “… na hora da aurora boreal ele é encarnado”, por que ele tinha tido essa experiência.

Então quando eu comecei a ver em escolas de crianças de 2 a 3 anos, os professores gritando e crianças de castigo porque tinham deixado cair a maçã, e eu que já tinha trabalhado nesta área motivacional e eficácia pessoal estava desperta pra isso, não enquanto mãe, mas enquanto pessoa.  Foi isso que me interessou tanto no High Scope.

A primeira  vez que entrei em contato com o modelo High Scope, foi através da Escola Raiz. Pensei ‘se isso resultar, quando as pessoas estiverem adultas, não precisaremos explicar que não pode gritar com o funcionário,  que o erro faz parte do processo, que há coisas boas e coisas más, ensinando o básico da natureza humana’.

Aquilo que estou ensinando para os adultos se eu ensinar agora para as crianças eles já irão chegar lá com essas competências , porque se trabalha em grupo, faz se assembleias , participam no processo construtivista e experiencial.

Achei espetacular e inscrevi meu filho nesta escola. Nunca pensei que eu abriria uma escola também e comecei a trabalhar numa empresa portuguesa nesta área de treinamento. Tive um grande choque com a realidade empresarial em Portugal. Rapidamente percebi que eu não ia querer  fazer aquilo. E então surgiu a ideia de abrir uma escola e começaram os questionamentos do porque que as escolas não ensinam a pensar.

 

Grupo Keeper: Como ocorreu a construção dessa ideia?

Sofia Borges: Passei a questionar meus colegas para entender o que os motivava a escolher uma escola para seus filhos e percebi que a maioria das escolas faz a mesma coisa, dá o livro, ensina a matéria ques está no livro, prepara para os testes e exames. E descobri que a maioria dos pais não quer saber muito mais do que isso, querem saber se os filhos estão preparados para o teste para tirar boas notas nos exames, ir para a faculdade e seguir com a vida deles.

Eu não pensava dessa forma sobre a vida porque fui trabalhar em coisas que nunca pensei e o que eu tinha estudado na faculdade não teve de fato muita importância para as coisas que eu fiz na minha vida.

Fizemos um trabalho de parceria com a Escola Raiz de quase 2 anos e nasceu Os Aprendizes,  uma escola para implementar o modelo High Scope. Começamos e as crianças foram chegando. O fato de eu não ser professora fez com que eu agisse como uma criança questionadora. Por exemplo, dizia-se que era proibido lavar os dentes na escola porque não era saudável  e eu passei a questionar isso. Liguei para o Ministério da saúde e perguntei se era proibido e eles disseram que não era. E assim fiz com várias coisas e descobri algo maravilhoso. O Ministério da Educação tem um currículo que é aquilo que a escola implementa mas não exige que implemente só aquilo, nem que eu não faça com a metodologia que eu quiser. Então eu poderia fazer com a metodologia do High Scope ou de outras formas e fui descobrir as formas que existem e descobrimos Montessori, Movimento da Escola Moderna , Waldorf e várias outras.

 

Grupo Keeper: Quais foram os critérios para a escolha da metodologia?

Sofia Borges: Na época a escola era pequena e cada um da equipe ficou com a responsabilidade de estudar um modelo, depois tínhamos que apresentar aos outros.  A minha experiência empresarial me ajudou nisso. Eu vim sem grandes preconceitos então pra mim tudo era possível, além de ter a ver com a minha natureza.

Ao descobrir que no Ministério não haveria grandes impedimentos então começamos a pensar, ‘estamos sempre a falar mal da nossa sociedade, então que pessoas nós gostaríamos de ter na sociedade? Que sociedade gostaríamos de ter?”

Então surgem ideias que parecem utópicas,  ‘Ah, gostaríamos de pessoas mais honestas, gente mais justa’, ok, mas isso não é utópico, porque faz parte da nossa natureza, nós somos justos, nós somos honestos. E como potencializar isso nas pessoas de maneira que possam ir para o mundo ser os cidadãos que a gente acha que deviam ser. Porque vivemos em uma sociedade que as pessoas valorizam mais o do outro. “Ah os suecos é que são bons”, “os nórdicos que são bons, honestos e justos”. Não é bem assim, não é mesmo? O que eles fazem de diferente? O que eles valorizam? O que eles potencializam nas escolas? Então traçamos esse perfil sobre o que achávamos do cidadão que vai para a sociedade como devia ser e quais eram os pressupostos que tínhamos em termos de educação e chegamos a quatro grandes pressupostos:

  • A criança, apesar de ser uma criança é uma pessoa e portanto tem sonhos, pensamentos e ideias, princípios, formas de estar, personalidade e portanto não podemos fazer tábua rasa e dizer que é uma criança, não interessa e eu que vou dizer como é que é.
  • entendemos que nosso objetivo é potencializar isso para que cada um desabroche e manifeste sua individualidade. Mas a escola irá atuar aonde? Na totalidade da criança que é um ser global.
  • Somos um conjunto de coisas e aprendi que ninguém tem um bom resultado acadêmico se tiver infeliz do ponto de vista das suas relações sociais, ninguém tem bom resultados acadêmicos se tiver fome, se chegar em casa e tiver que trabalhar muito e não tem tempo para brincar, se sofrer muita pressão de que tem que tirar boas notas. Dessa forma temos que atuar nesta totalidade da criança.
  • Como é que a criança aprende? A criança aprende na prática , dentro daquilo que vivencia. O que a escola tem que ser? A escola tem que ser um espaço onde as crianças tenham experiências diárias, semanais, mensais, anuais que permitam o desenvolvimento de sua totalidade pra que sua individualidade possa se manifestar.

E as experiências são em que áreas? Tem a ver com a tal sociedade que queremos, então elas precisam ter experiências de gestão de conflitos, autonomia , reponsabilidade, limite , inglês, matemática, estudo do meio, filosofia, educação física , artes. Então fica fácil pensar sobre o que queremos que eles tenham experiência para tocar a sua totalidade neste respeito com a individualidade de cada um. Nós que temos que ter a flexibilidade de nos adequarmos. Por isso não podemos ficar fechados em um só modelo.

Eu entendo as escolas que se prendem a um só modelo, mas eu gosto da liberdade de poder criar em função desse tal sentir que resulta das crianças, da observação do que acho que resulta ou não resulta.

Eu até hoje dou aulas porque é uma das melhores formas de perceber o que está resultando. As conversas conseguem ser a volta disso, temos uma ideia clara do que queremos atingir e vamos observando a partir das características deles seja de idade ou de temas que precisam ser mais trabalhados.

Tem sido um trabalho extraordinário de criar aquilo que podemos chamar de nossa própria pedagogia, nosso próprio modelo quem sabe um dia escrevamos um livro sobre nosso modelo educacional.

 

Grupo Keeper: De que forma a Pedagogia Waldorf, Pedagogia moderna e High Scope podem ser trabalhados conjuntamente ?

Sofia Borges: Costumo defender esses movimentos de forma pouco profunda porque eles enriquecem se uns aos outros, mas a mais completa pra mim é o High Scope porque tem tem práticas de sala de aula, vê a criança como um todo, fala muito na interação adulto/criança. O movimento da Escola moderna traz muito corporativismo, muito mais interessante do que a forma que o High Scope trata o assunto. A Escola moderna fala muito das assembleias de turma, assembleias de escola, do trabalho de texto ser feito em grupo, dos diários de turma que é onde eles põem os problemas deles para resolverem, das tarefas. O trabalho do High Scope da criança como individuo acho extraordinário e traz o Active Learning. O movimento da escola moderna traz essa visão do grupo, conjunto, cooperação e Waldorf dá profundidade a tudo isso que esta inserida a uma forma de estar que é a Antroposofia.

Por exemplo uma escola High Scope não necessariamente tem uma forma de se alimentar diferente. Nós naturalmente chegamos a uma alimentação diferente, porque é impossível falar que temos que cultivar uma relação saudável entre eles sem falar sobre uma relação saudável com o corpo deles.

Nossa alimentação é toda orgânica. Começamos a ter a horta e começaram a cuidar da horta, a falar do estudo do meio. Isso que tem sido fascinante pra mim. Chega se lá, as coisas vão chegando naturalmente e começamos a ter cuidado com nossa alimentação, nas escolas o normal era as crianças comerem salsichas, batata frita, hamburger, massa. O fato de termos uma pedagogia diferente fez com que fossemos atraindo pessoas diferentes, os estrangeiros,  os vegetarianos, veganos. Não somos uma escola vegan ou uma escola vegetariana, mas temos 1 dia de carne na escola, 2 dias vegetarianos que se pensarmos é o que a própria organização de saúde hoje diz.

Mas vou comer carne sabendo se que os animais são todos maltratados? Então a vaquinha que esta naquele pasto é bem tratada. Acaba sendo uma questão de coerência. Não temos fritos, os leites são vegetais, o normal é comer quinoa e arroz integral, faz parte do dia a dia deles. O pão passa por um processo de fermentação lenta. Todo esse amor que colocamos na forma como nos relacionamos com eles, na forma como queremos que se desenvolvam como cidadãos responsáveis, honestos e justos tínhamos naturalmente que colocar na alimentação. Era uma grande incoerência nossa alimentação não ser assim.

Como podemos falar de pessoas preparadas para a sociedade se a escola só foca no acadêmico? É impossível. Uma criança que não saiba gerir sua frustração, a sua raiva, a sua zanga, que não desenvolva a resiliência não esta preparada para coisa alguma na vida, nem academicamente ira fazer nada na vida.

Temos muitas pessoas que estão muito preocupadas com a alimentação mas que são briguentas. Não adianta comer só legumes e no dia a dia fica cultivando somente a raiva. Tive experiências engraçadíssimas na escola de as crianças dizerem: Estou com raiva, e eu disse entendo isso, eu as vezes sinto raiva. Eu posso sentir raiva, tu podes sentir raiva. Mesmo que eu diga que não, você vai sentir. O que é que não pode? Não podes desrespeitar e invadir o espaço do outro porque está com raiva. Podemos ajudar a fazer com que tenha menos situações que te provoquem raiva porque faz mal em você,  sentir raiva muitas vezes acaba consumindo em termos de saúde.

Nisso que acho que a Antroposofia é muito interessante, porque é muito coerente, apesar de muito fundamentalista. Muitas metodologias são de sala de aula, mas que depois não vão para além e não olham para o desenvolvimento físico, emocional, nutricional.

A pouco tempo tivemos uma empresa aqui para inspecionar e deram um produto para desinfetar os legumes. Quando entrei na cozinha percebi que cheirava a cloro , me mostraram o produto e descobrimos que em alguns países aquilo era proibido. Ninguém se questiona sobre isso. Compramos alimentos orgânicos para lavar com um produto químico? Questionamos a empresa e pedimos que nos desse uma alternativa que fosse respeitadora daquilo que valorizamos e falaram do Vinagre de maçã.

Mas é isso que percebemos que podemos fazer na sociedade. Por um lado as crianças que estejam aqui e vão para o mundo com um pensamento diferente sobre as coisas e as famílias que nos procuram nesta troca entre nós e eles, nosso padeiro por exemplo, é um pai que faz pão com fermentação lenta, o que evita vários problemas e intolerâncias.

 

Grupo Keeper: Em que consiste a Educação Holística?


Sofia Borges: A Educação Holistica é o inteiro. A palavra holística vriou algo místico e exotérico. Esse é o problema porque direciona somente a um gênero de pessoas. Nós não temos um gênero, nossa educação abrange varias culturas e tipos de pessoas.

Temos um grupo aqui na escola que percebemos que se nos encontrássemos em outro ambiente não nos relacionaríamos, mas nos encontramos aqui e viramos uma comunidade para trabalharmos umas com as outras. Agora estão criando um grupo no Facebook onde cada pai pode dizer o que é que faz para outros que tenham interesse. Então devagarinho vamos mudando essas mentalidades e em conjunto mudamos uns aos outros o que é uma maneira de ter um mundo melhor.

O olhar que temos sobre as coisas é o olhar que a gente escolhe. Holistico na forma como nos o olhamos é o integral da pessoa. O olhar da pessoa que é exotérico ou não.  Temos meditação todos os dias e o que ela traz, o que mais queremos nas crianças e adolescentes é que eles saibam ouvir, perceber o que sentem sem a pressão da sociedade. Não há melhor ferramenta do que a meditação para perceber isso. É um momento para os ensinar a não querer estar sempre ligados.

Eu tive esses dias um insight. Estava assistindo um filme sobre um adolescente que era tóxico dependente, uma grande amiga dele morreu e ele dizia que tinha viciado a menina nas drogas. A mãe dele dizia por que você a levou para as drogas? Ele respondeu que queria que ela fosse feliz, que ela se sentisse aceite e parte de alguma coisa. E pensei, que engraçado, é isso que nós buscamos nas coisas, a sensação que elas causam. Não é a coisa. Quem é viciado na heroína não quer a droga, mas a sensação que ela provoca. Uns buscam bolos, outros conversas com amigos…muitos dos desafios com os adolescentes tem sido sobre a busca deles.

Por exemplo, aqui na escola eles não podem trazer celular, mas ao invés de simplesmente proibir eu explico o porquê. Agora quando os argumentos deles forem mais poderosos que os meus eu deixo trazer. Por enquanto meus argumentos são mais poderosos, porque, o que vocês procuram nisso? ‘Estamos ligados uns aos outros’, mas aqui vocês estão ligados uns aos outros então precisam disso? O que querem com isso? O que precisam? ‘Preciso ligar a minha mãe”. Então pode ir a secretaria e fazer a ligação.

Vou sempre encontrando formas de lhes dar a mesma sensação com coisas que não sejam ruins. Tem coisas interessantes no uso do celular, como os coloco para usar as coisas interessantes sem que tenham um efeito negativo? Somente conseguimos se trabalharmos no nível da consciência deles. Quando trabalho lentamente, sem imediatismo, buscando criar sensações que procuram com aquilo. Somente se tivermos uma visão holística do desenvolvimento é que iremos nos preocupar com isto.

 

Grupo Keeper: No Brasil os pais e professores tem dificuldade em impedir o uso do celular na escola. O que pensa disso?

Sofia Borges: Essa coisa de não conseguir proibir é um problema. As vezes os pais querem dar remédios pra escola dar para o filho porque não conseguem dar em casa. Como assim? A pouco tempo teve uma série de reportagens interessantes sobre os jogos. Claro que temos crianças que jogam mais horas do que deveriam jogar. E os professores começaram a debater que não entendiam porque as mães deixavam os filhos jogar todo esse tempo. Em tudo na vida temos que procurar o equilíbrio entre dar lhes liberdade pra pensar, descobrirem o que são, o que gostam e o que não gostam mas no decorrer do processo de desenvolvimento alguém tem que tomar decisões, colocar regras e limites. Esse é o dever da escola e da família, de ter essa parceria. Qual é a dificuldade de uma escola dizer que não se pode ter celular? O que é que eles irão fazer? Teremos menos pais a se inscrever porque não se pode usar celular? Se um pai não vai se inscrever porque o filho não pode usar celular na sala de aula, então não interessa estar na minha escola.

 

Grupo Keeper: Poderia nos contar uma história que ocorreu que mostrou a eficácia da metodologia?

Sofia Borges: Nunca pensei que o contexto pudesse ter tanto impacto. Eu tinha ideia que o principal motivo em se criar Os Aprendizes era ser algo espetacular, mais motivador, mais interessante, global. Mas nunca pensei que uma escola pudesse ser tão potencializadora ou tão inibidora do desenvolvimento das pessoas.

Tem muitos casos de crianças que chegam nunca tendo gostado da escola na vida delas e com um relatório que tem comportamentos ou problemas acadêmicos. Mas vemos que esses problemas não aparecem aqui, aquilo era só uma resposta a um contexto que era desadequado e isso pra mim era assustador.

Temos a história de uma menina que chegou de outra escola com um relatório negativo, e mesmo que a criança traga um relatório nós esperamos, observamos e somente depois vemos como desenvolver. Temos reuniões semanais para falar das crianças e a professora dela dizia que ela não tinha dificuldades, era reservada e criativa e mesmo com o tempo nunca apareceram dificuldades.

O que aconteceu foi que ela teve espaço para dar a opinião dela, para usar a criatividade. Tem aulas em que há ditados e cópias, mas o fato de ter possibilidade de manifestar seu ser criativo, fez com que ela tivesse ótimos resultados.

Outro caso, um dos casos mais graves que poderia trazer problemas futuros para a criança, foi de uma aluna que chegou de outra escola com diagnóstico de um déficit cognitivo. Ninguém sai de um déficit intelectual, ela pode ser trabalhada de forma que não impeça de ter bons resultados, mas não se deixa de ter o déficit na vida.

Esta aluna veio para cá e foi avançando, tinha as aulas de apoio com desempenho extraordinário nas aulas de teatro, por exemplo, e criou muitas relações sociais. A criança voltou a fazer uma avaliação e descobriram que não tinha o déficit cognitivo. Agora analisando a situação, mesmo que os técnicos que fizeram a primeira avaliação tenham se enganado, o que verificamos é que ela pode ter apresentado resultados de pessoas que tem o déficit cognitivo, mas a partir do momento que o contexto foi potencializador ela conseguiu apresentar resultados diferentes.

Ela nunca teve déficit cognitivo e se o contexto não tivesse sido potencializador ficando agarrado ao diagnóstico, talvez nunca teríamos conseguido que todas essas qualidades dela se manifestassem, o que é extremamente gratificante por fazermos parte do bom desempenho dela.

Nós ficamos tristes de ver as crianças chegarem aqui tão maltratadas. Não é certo. Era só fazer um pouco diferente, ter um olhar diferente sobre eles. Nós também não fomos educados assim, os professores não foram assim com a gente então estamos aqui o tempo todo mudando.

 

Grupo Keeper: Como funciona o dia a dia escolar na escola Os Aprendizes?

Sofia Borges: Não usamos Ipads. Se eu substituir tudo por Ipads convencida de que é uma coisa super evoluída, na realidade estou impedindo o desenvolvimento de uma série de coisas. Eles tem que saber usar a tecnologia, isso naturalmente irão aprender, mas há outras coisas que precisamos ensinar, eu preciso ensinar a escrever manualmente, eles ainda leem os livros na biblioteca, tudo isso sem deixar de ensinar muitas outras coisas espetaculares.

Nós ganhamos este ano, em terceiro lugar, um concurso da UNESCO sobre direitos humanos. Dentre 17.000 pessoas, foram 9 os ganhadores. Ganharmos mostra-nos um fato muito interessante, somos uma escola pequena mas falar sobre direitos humanos não é uma aula que damos, mas uma experiência de transformar a vida daqueles que ninguém quer por ser diferente.

Fomos a Madri ver o quadro exposto no museu e foi muito interessante na parte artística, porque o aluno que ganhou tem ótimas notas em química e física,  então não tem que ser uma coisa em detrimento das outras. Abdicar de algumas coisas para aprendermos outras.

Não vamos dizer vai ser só ao ritmo deles. Muitas escolas alternativas acabaram por se perder. Nós usamos os livros didáticos em sala de aula somente para consulta. Por exemplo, a professora faz uma atividade experiencial para introduzir a matéria, todos vão lá pra fora pra desenhar os ângulos da matemática com o corpo etc. O primeiro contato com a matéria é sempre uma atividade experiencial. Depois vão consolidar, criam se os workshops com trabalhos de projetos, pesquisas, em grupo ou individual.

Somente o uso do livro cria um processo inibidor porque é uma matéria mastigada por um autor de como chegaram a uma conclusão e para nós o rico é o processo para chegar lá. Cada turma em cada ano terá uma abordagem diferente da matéria porque são conjuntos de indivíduos diferentes. O professor no final do ano tem que chegar a matéria que ele tem que dar, mas o caminho que ele vai percorrendo é diferente.

Temos vários instrumentos de avaliação, o teste é um, temos também os trabalhos de projeto, as apresentações do trabalho do grupo, tudo isso conta para a avaliação. O aluno avalia a si mesmo em frente dos outros alunos que terão oportunidade de falar o que pensam também. De repente o aluno  fala que é muito bom em história e os colegas de sala dizem que apesar disso, ele atrapalha a aula com seu  comportamento inadequado.

O que vale ali é o processo de percepção de que nós não somos os resultados que temos mas, somos a totalidade. Portanto se tenho bons resultados a custa de prejudicar meus colegas eles buscam o desenvolvimento como um todo, aceitando feedbacks e oferecendo feedbacks como parte do desenvolvimento.

O que já é mais difícil com os adultos, porque não fomos educados para perceber que erramos porque temos o receio da repreensão. E pra eles não, pra eles é o que faz sentido. Se eu pudesse mudar alguma coisa na Educação seria o olhar, se nós mudarmos o olhar sobre a criança, sobre nosso papel sobre a educação, mudava tudo. Se olharmos de forma amorosa o que está por traz do comportamento de algumas crianças, ao invés de sentirmos raiva, sentiríamos compaixão.

 

Grupo Keeper: Na secretaria da escola há uma placa com a frase “Feliz é quem é aprendiz”, essa frase resume a missão da escola Os Aprendizes?

Sim. Ganhamos de presente de uma mãe e quando olho para traz, penso nos acasos que não são acasos. O nome da escola ficou Os Aprendizes porque são pessoas que estão sempre em um processo de aprendizagem. Nós adultos que estamos aqui sentimos que é um processo de profunda transformação e aprendizagem com as crianças. Estamos  sempre mudando coisas em nós porque não foi assim que fizeram conosco e temos sempre que mudar para poder ser um exemplo pra eles.

Escola Os Aprendizes em Portugal: http://osaprendizes.pt/quem_somos 

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